Pode o movimento que se convencionou chamar bolsonarismo ser considerado apenas uma vertente ideológica de extrema-direita, que deva ser interpretada como um fenômeno político-partidário, tão somente, e, portanto, unicamente neste âmbito ser enfrentado? E, se é sobre política e sobre bem governar, o que justifica o esforço patético e o malabarismo retórico dos bolsonaristas na defesa de seu mito, a despeito da hecatombe que foram os seus quatro anos de mandato?
Toda a inaptidão notória, a inexistência de decoro, a afronta permanente à democracia e suas instituições, a corrupção, a falta de sensibilidade social, a condução catastrófica da pandemia, a falência econômica, a fila do osso, o desemprego, as ilegalidades, e, o que mais ficou evidente, a ausência absoluta de caráter do ex-presidente - atual presidiário - jamais sequer arranharam a epiderme de sua imagem perante seu séquito fanatizado! Politicamente, o mito já deveria ter derretido ante a debilidade de sua gestão, tal como ocorreu com Collor e FHC - pra citar nomes também de direita -, mas isso não está nem perto de acontecer.
Não, caríssimos. Isso não é sobre política, tampouco sobre governar o Brasil, bem ou mal. Isso é sobre um bolsonarismo pré-Bolsonaro que jazia, indócil e latente, no íntimo de tantos brasileiros, mas que ainda não havia encontrado o momento oportuno de se manifestar livremente. No popular, é sobre sair do armário.
A meu ver, ser bolsonarista não é a adoção de um posicionamento político, tampouco uma identificação ideológica. Bolsonaristas mal compreendem esses temas. Ser bolsonarista é algo maior e mais assustador: é poder manifestar seu racismo, sua misoginia, sua homofobia, seu autoritarismo, sua violência, sua intolerância, para além do sigilo de seus lares e da cumplicidade de seus pares. É poder ser vil fora do armário, e jactar-se disso.
Esse comportamento, que, antes, restringia-se aos círculos mais íntimos dessas pessoas, hoje, é onipresente na sociedade e desfila em carro aberto com despudor e orgulho repulsivos! E foi ele, Bolsonaro, do alto do mais importante cargo do país, quem legitimou tais comportamentos, e os estimulou à exaustão, com a chancela do Palácio do Planalto. A Caixa de Pandora foi aberta, e a esperança, aterrorizada, nem cogita botar o nariz pra fora.
Bolsonaro, para seus seguidores fanáticos, não é um político, meramente, com cujo viés ideológico seus eleitores se alinham, mas, sim, o modelo mais perfeito e acabado, e sob uma forma poderosíssima de autoridade, daquilo que essa gente infeliz, em seus sonhos mais molhados, sempre quis ser, mas não o fazia porque a sociedade pré-bolsonarista os constrangia, ainda que minimamente. Ele é o seu espelho. E, tal qual Narciso, que acha feio o que não é espelho, bolsonarista odeia o que não é Bolsonaro. No caso de Bolsonaro, muito mais perigoso do que o político, é o ídolo. E o seu êxito eleitoral veio, em grande medida, na esteira dessa idolatria.
E, notem, não estou me referindo, aqui, a quem, eventualmente, tenha votado em Bolosnaro, que poderá tê-lo feito por inúmeras razões (antipetismo, polarização, conservadorismo...), mas àqueles que compactuam com a degeneração de valores humanos que ele representa e difunde. Eleitores de Bolsonaro podem, muito bem, vir a votar em Lula, em variados contextos políticos. Bolsonaristas, jamais, pois Lula e a esquerda combatem tudo aquilo que eles escondiam no fundo falso de seus armários embutidos.
Talvez levemos gerações para descontaminar o nosso tecido social desse lixo tóxico chamado bolsonarismo, mas precisamos começar ontem, pois, a despeito do estado avançado de decomposição do mito, a mitologia sobrevive, e sua falange continua ativa e propagando seus (des)valores a jorro.


