sexta-feira, 18 de novembro de 2005

LUCÍOLA

Regozijo-me voluptuosamente, no momento, com a leitura do grande mestre da prosa romântica brasileira, José de Alencar, mais especificamente, estou devorando com avidez o romance urbano Lucíola (que juntamente com Diva e Senhora, compõem a trilogia denominada pelo próprio Alencar de "perfis de mulher"). É realmente assombrosa a destreza da pena alencariana, o estilo inconfundível, sua prosa de grande teor lírico que, não raro, confunde-se com a mais elevada poesia.

Mais surpreendente ainda é o polêmico tema abordado pela obra em questão: a prostituição, então vista como única e dramática alternativa de sobrevivência, e o rompimento de convenções sociais hipócritas, que à época vigiam e cuja sobrevida, lamentavelmente, perdura até os dias de hoje. Sob uma ótica completamente despida de qualquer convencionalismo mesquinho que possa haver em se tratando de tão delicado tema, o autor cearense explora com maestria e verdade a dura realidade das Marias Madalenas de então, que vendiam o corpo por contos de réis, mas mantinham-se puras na alma e no caráter.

Lúcia, uma cortesã de infância sofrida e trágica, apaixona-se por Paulo, que corresponde com a mesma intensidade àquele sentimento, um sentimento puro e sublime, mas que, sob a ditadura da opinião (parafraseando Stendhal), acabrunha-se, achando-se indigno de vicejar diante de tão insólita circunstância.

Alencar revela em Lúcia a mais bela personificação da candura. Um ser altamente sensível e puro, cujo destino fora traçado por circunstâncias alheias à sua vontade. Uma personagem paradoxal, como somos todos os seres humanos.

Maria da Glória, o verdadeiro nome de Lúcia, assume a identidade de sua colega de quarto quando do falecimento desta, fazendo deste momento altamente dramático um divisor de águas em sua vida. Sai de cena, então, a doce e inocente menina para dar lugar à mais bela e cobiçada cortesã do Rio de Janeiro. Mas, a despeito de seu comportamento libidinoso e promíscuo como jamais se havia visto em toda a corte e seus arrabaldes e sua aparente avareza e sedução por jóias e dinheiro, Lúcia mantinha latente e imaculada em seu âmago a pura Maria da Glória, que viria a ser resgatada tão-somente através verdadeiro amor, que Paulo despertara em seu sofrido coração.

Uma verdadeira obra-prima, amiúde comparada um tanto quanto injustamente com A Dama das Camélias, do escritor francês Alexandre Dumas Filho, cuja personagem principal, Marguerite Gautier (uma cortesã, da mesma forma), não possui a riqueza e a complexidade psicológica com que Alencar abrilhanta a sua encantadora cortesã.

É leitura obrigatória!

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