segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CANÇÃO, MÚSICA E POESIA


Luiz Tatit é um cidadão múltiplo. Graduado em Letras e Música, mestre, doutor e professor titular do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e, por fim, como se não bastasse, músico e cancionista excepcional.

E é à leitura do livro desse complexo paulistano aí de cima que venho me dedicando esta semana: Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Canções. Publicada em 2007, a obra é um deleite para os que amam música e desejam conhecê-la mais a fundo. Entre tantas boas histórias contadas pelo autor ao sabor de suas reminiscências, deparo-me com uma intrigante referência a versos do poeta piauiense Torquato Neto:

Estou pensando
No mistério das letras de música
Tão frágeis quando escritas
E tão forte quando cantadas
[...]
A palavra-canto
É outra coisa

Fez-se, então, a luz! Há muito que eu pressentia, sem entender bem o porquê, que a letra e a melodia são irremediavelmente indissociáveis na canção, mas nunca havia encontrado algo mais concreto que referendasse essa minha suspeita. Uma, sem a outra, intuía eu, tornava-se pobre, não expressando de pleno o que, juntas, sob a forma de canção, fá-lo-iam por completo.

Por várias vezes eu, por amor à poesia, destacava a letra das canções para disseca-la, extrair o seu valor poético, que me parecia tão forte na canção entoada, mas baldadamente não o encontrava. Suprimindo a melodia, a letra soava-me menor, quase pueril. Indagava-me “cadê a poesia que tava aqui”?

O mesmo acontecia ao apartar da canção a sua letra para dedicar-me à melodia isoladamente. Sobrevém, então, uma sonoridade estranhamente esmaecida, sem o vigor e o alcance anteriores.

Eis que chega, então, o senhor Luiz Tatit com o seu Todos Entoam, e me resgata do breu da ignorância. O autor nos apresenta então o conceito de canção, fazendo a necessária diferenciação entre esta, a música e a poesia.

Segundo Tatit, canção é letra e melodia. Na supressão de um desses fatores, inexiste o produto canção. Diferentemente, na música e na poesia, linguagens autônomas que encerram em si mesmas todo o sentido que tencionam exprimir, não há essa relação de interdependência. Essa coadjuvação recíproca é vital para a sobrevivência da canção.

Luiz Tatit cita o poeta-pensador José Lino Grünewald: “Verifica-se, então, um fato peculiar: versos, que lidos ou declamados, são simplórios, ganham novos efeitos de acordo com a faixa musical e o modo de cantá-los.”

O verso, segundo a idéia de Grünewald, é, digamos, vitaminado pela força da melodia e pela maneira de entoá-lo.

Celso Favareto, de cuja citação o autor também se vale, faz a seguinte observação, que, a meu ver, é a mais elucidativa: “No canto [canção] brilham significações que provêm da fricção da língua com a voz, numa atividade em que a melodia trabalha a língua ocupando suas diferenças dizendo o que ela não diz. [...] Pela entoação, inflexões e gestos vocais o canto intensifica o desejo, ressaltando também o ritual da música, manifestado na dança e no sexo.”

A “fricção da língua com a voz”. Aí está, no meu ponto de vista, o nervo exposto desta ladainha toda a que eu vos exponho. A letra marcha no dorso da melodia – e vice-versa. Dilema decifrado. Estou salvo!

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