quinta-feira, 3 de junho de 2004

AS ENTREVISTAS

Cá nas minhas longas horas de ociosidade - pra não dizer vadiagem -, tive uma idéia que, num primeiro momento, considerei genial. Faria um exercício sócio-antropológico de vital importância para melhor entendermos a sociedade e o ser humano de então.

Travestindo-me de repórter, realizaria a mesma entrevista - com as mesmas perguntas e propostas - com duas personalidades completamente antagônicas, totalmente divergentes entre si no que tange aos níveis econômico-financeiro, social e cultural.

Primeiramente, elaborei com especial cuidado as dez perguntas que faria a cada um dos entrevistados, das quais a metade exigiria um considerável nível intelectual para que se pudesse entendê-las e respondê-las a contento, sendo as restantes de um nível intelectual que beirava a mais tosca ignorância.

Abateu-se sobre mim uma preguiça de tal grandeza que, noutro lampejo de genialidade (isso vem me acontecendo seguido, é impressionante!), resolvi que, em vez de sair em busca de tais pessoas para entrevistar, criaria personagens fictícios que, inevitavelmente, se enquadrariam perfeitamente nos perfis desejados.

Ei-los:

Dr. Túlio Bernardo Vasconcellos, formado em filosofia pela USP, com mestrado e doutorado em filosofia também pela Universidade de São Paulo. Assina uma coluna semanal no jornal Folha de São Paulo. Treze livros publicados, sendo nove deles traduzidos para vários idiomas. Renda mensal média: R$ 18.000,00

Atanagildo Natalício de Souza (seu Ata), quarta série do primário incompleta, pedreiro autônomo, escreveu uma vez uma carta de meia página para sua mãe, que mora na Paraíba (o correio a extraviou). Renda mensal média: R$ 380,00 (quando está trabalhando)

Ao realizar as anunciadas e tão ansiosamente aguardadas entrevistas, tive uma das maiores decepções de minha vida. Ambos os entrevistados, tanto o enojadamente culto como o pateticamente ignorante, davam respostas idênticas às questões que lhes eram propostas. Literalmente idênticas, palavra por palavra, sílaba por sílaba, letra por letra, vírgula por vírgula. As pausas e até mesmo as entonações de voz eram as mesmas, e nas mesmas palavras! Senti-me traído e injuriado diante de tamanho cinismo e ironia de suas partes. Mandei-os pro inferno e, numa decisão em que a razão deu lugar à cólera infinita, sob forma de protesto e para manifestar toda a minha indignação diante de tal palhaçada, resolvi não publicar as entrevistas e esquecer esta minha frustrante investida no universo do jornalismo.

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